O 8 de março não é uma data de homenagem às mulheres.
É importante dizer isso com clareza. Não se trata de nos parabenizar por sermos mulheres, nem de celebrar uma condição que, para muitas, ainda é marcada por violência, silenciamento e desigualdade.
O Dia Internacional da Mulher é um dia de luta porque segue sendo um dia em disputa. A realidade insiste em nos lembrar que a luta que o originou ainda não terminou. Também é importante pontuar que essa data não se assemelha a outras criadas para movimentar o comércio ou lotar restaurantes. O 8 de março não nasceu para vender flores, bombons ou cosméticos. Ele nasce da organização de mulheres trabalhadoras, da recusa em aceitar a subalternidade imposta historicamente e da exigência por direitos básicos.
Quando essa origem é apagada, o que se perde não é apenas a memória, mas a força política que ela carrega. Transformar o 8 de março em mensagens vazias é uma forma de silenciar justamente aquilo que ele denuncia (leia aqui a história por traz da data).

Quando os números gritam
Estamos no Brasil, e aqui a violência contra a mulher não é exceção — é regra.
Às vésperas deste 8 de março, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou que 2025 (leia o relatório completo aqui) registrou o maior número de feminicídios desde que o crime foi tipificado, em 2015. Foram 1.568 mulheres assassinadas, uma média de quatro por dia, simplesmente por serem mulheres.
Em dez anos, mais de 13 mil mulheres foram mortas nessa condição no país.
Esses números não representam casos isolados nem tragédias individuais. Eles revelam um padrão estrutural que se aprofunda sempre que políticas de proteção são desmontadas, relativizadas ou atacadas.
Não é uma disputa de opinião
A violência contra a mulher não nasce de conflitos domésticos ou de opiniões individuais. Ela é sustentada por projetos de poder que dependem da manutenção das mulheres em um lugar de obediência, silêncio e submissão.
Por isso, essa discussão vai muito além da falsa polarização entre feminismo e machismo. Igrejas, instituições políticas e discursos moralistas frequentemente operam juntos para controlar corpos, limitar escolhas e naturalizar a violência. Quando mulheres ocupam esses espaços apenas para reproduzir esse discurso, não rompem com a lógica de dominação. Ao contrário, ajudam a legitimá‑la.
Em 2026, um ano eleitoral, essa reflexão se torna ainda mais urgente. A cada eleição, vemos a presença feminina no Congresso diminuir ou ser ocupada por mulheres que defendem pautas que reforçam o patriarcado, retirando espaço de quem poderia, de fato, nos representar e defender nossos direitos.
Guerra, poder e corpos femininos
Essa lógica não se limita às fronteiras do Brasil. As guerras em curso no mundo escancaram o caráter profundamente masculino da violência organizada. Mulheres e crianças são as principais vítimas de bombardeios, deslocamentos forçados e ataques a escolas, hospitais e famílias inteiras.
O estupro, usado sistematicamente em conflitos armados, não é desvio nem doença. É exercício de poder. É dominação, humilhação e controle. A guerra apenas torna mais explícita uma violência que as mulheres conhecem há séculos.
Resistir sempre foi sobreviver
A guerra contra as mulheres é antiga. Por isso, elas aparecem pouco na história oficial. E, quando aparecem, são frequentemente desqualificadas, demonizadas ou silenciadas. O poder sempre foi masculino, independentemente do regime político ou da época.
A democracia, um substantivo feminino, segue sendo usada para decidir sobre nós sem nós.
Diante desse cenário, falar de resistência não é retórica. É sobrevivência. Foi assim com Maria da Penha e com tantas outras mulheres anônimas que sustentaram, com seus corpos e suas vidas, pequenas conquistas que hoje voltam a ser ameaçadas.
Ler, bordar e escolher
A resistência também se constrói no cotidiano, nas escolhas que fazemos e nas ferramentas que usamos para compreender o mundo. A leitura é uma delas. Ao longo do tempo, muitas mulheres escreveram sobre poder, corpo, trabalho e liberdade, ajudando a nomear aquilo que tantas de nós sentimos, mas nem sempre conseguimos explicar.
Ao final deste texto, organizei uma seleção de livros — de ficção e não ficção — que dialogam com essas questões e podem aprofundar essa reflexão.
O bordado também é uma dessas ferramentas. Para quem quiser transformar esse gesto em expressão política, compartilho a série Manifesto Bordado, com riscos disponíveis para download e vídeos que mostram o processo de criação. Há ainda um vídeo no meu canal, o Rosália Rosarinha, para quem deseja bordar um quadrinho em bastidor em referência ao Dia Internacional da Mulher, como forma de marcar essa data com linha, tempo e intenção.
Entre linhas, lutas e escolhas
O 8 de março permanece como um dia de luta porque a violência que o originou não cessou — ela apenas mudou de forma e ganhou novos discursos.
Reconhecer isso não é radicalismo. É abrir os olhos para um embate profundo entre projetos de sociedade. Existimos porque resistimos. E resistir segue sendo um gesto político indispensável para que outras mulheres possam, um dia, existir com dignidade.
Leituras para aprofundar a reflexão

Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus (1960)
Relato autobiográfico de uma mulher negra, mãe solo e catadora de papel, que narra o cotidiano da fome, da pobreza e da exclusão na favela do Canindé, em São Paulo. Um livro fundamental para compreender desigualdade social, racismo e a realidade das mulheres no Brasil.

O Conto da Aia, Margaret Atwood (1985)
Romance distópico que retrata uma sociedade autoritária e religiosa onde as mulheres perdem seus direitos e autonomia. A obra discute controle do corpo feminino, poder político e opressão, temas centrais nos debates sobre direitos das mulheres.

Os Testamentos, Margaret Atwood (2019)
Continuação de O Conto da Aia, o livro apresenta diferentes vozes femininas anos depois, revelando resistências, contradições e possibilidades de ruptura dentro de um regime opressor. Uma leitura sobre memória, poder e sobrevivência.

O Segundo Sexo — volumes 1 e 2, Simone de Beauvoir (1949)
Obra clássica do pensamento feminista que analisa como a sociedade constrói a mulher como inferior ao homem. Um livro essencial para entender a desigualdade de gênero, o papel social da mulher e a famosa ideia de que ninguém nasce mulher, torna‑se mulher.

O Calibã e a Bruxa, Silvia Federici (2017)
Análise histórica que relaciona a perseguição às mulheres, a caça às bruxas e o surgimento do capitalismo. O livro mostra como o controle do corpo feminino e do trabalho das mulheres foi central na construção do sistema econômico moderno.
Jornalista, bordadeira, artesã e criadora de Rosália Rosarinha Bordado e Agulhas da Resistência.