Pinterest, não bote IA no meu artesanato

Quem usa o Pinterest em busca de inspiração e novidades para o fazer manual já deve ter se deparado com aquelas imagens de peças perfeitas demais, com cores vibrantes e chamativas, capazes de deixar qualquer pessoa embasbacada. A primeira reação costuma ser de admiração: como é possível alguém ter feito algo tão perfeito? No entanto, olhando com mais atenção, começam as perguntas. Que linha é essa? Qual agulha foi usada? Que ponto é esse?

Aí vem o estalo. E junto dele, a irritação.

Não é real. É uma imagem gerada por IA (inteligência artificial). E é nesse momento que dá vontade de dizer em voz alta: Pinterest, não bote IA no meu artesanato. Porque quando uma plataforma construída em torno do faça você mesmo passa a entregar imagens que não existem no plano material, algo se desvirtua no próprio sentido do fazer manual. E pior: o Pinterest não indica que aquela imagem foi gerada por IA.

Na minha irritação, fui reclamar e descobri que não estava sozinha. Havia um mundo de gente indignada pelo mesmo motivo. Comecei, então, a rever meus pins salvos, tentando identificar se tinha guardado alguma imagem gerada por IA para descartá-la. Era uma forma de ensinar ao algoritmo que eu quero ver arte produzida por artesãs e artesãos, e não imagens bidimensionais criadas por comandos de programação.

Amigurumi

Eu amo amigurumi. Aqueles bichos e bonecos feitos de crochê. E gosto especialmente dos mais detalhados, como as bonecas da artista Oliga Arkhipova, que são um espetáculo à parte. Ela faz coisas incríveis, com uma precisão que só quem domina profundamente a técnica consegue alcançar.

Acontece que me deparei com uns gatos de crochê (veja imagens que separei logo abaixo deste parágrafo ☟) que simplesmente não eram reais. Eram imagens geradas por IA. Dá para perceber pelas cores, pelos pontos, pela perfeição da forma. Não é a perfeição humana da Oliga, construída com técnica, tempo e material. É outra coisa. Uma perfeição artificial, que não traz a limitação própria do fio ou da técnica empregada pelo artesão. É perfeição de computador.

Peças irreais de amigurumi geradas por IA

São cores e padrões inexistentes para o trabalho feito em crochê, com imitação de pontos que, independentemente do tipo de linha ou de agulha que se use, não são possíveis de se fazer em crochê

A partir daí, esse tipo de conteúdo começou a aparecer com frequência no meu feed. Eu marcava como “não tenho interesse”, denunciava, fazia tudo certinho. E nada mudava.

Golpes

Até que, finalmente — provavelmente depois de uma enxurrada de reclamações — o Pinterest incluiu uma opção nas configurações para escolher se queremos ou não ver conteúdo gerado por IA. Eu, obviamente, desativei tudo. Porém. isso não resolve completamente o problema, porque ainda depende de quem posta um conteúdo sinalizar que aquela imagem foi gerada por IA. E há, sim, gente mal-intencionada.

Existem perfis vendendo “receitas” de crochê baseadas em imagens impossíveis, riscos de bordado que não existem, cursos com peças que nunca foram feitas por mãos humanas. A pessoa paga achando que vai conseguir reproduzir aquilo. E não vai. Porque aquilo simplesmente não existe.

A IA, nesse contexto, não está apenas confundindo o olhar. Ela está sendo usada para enganar, lucrar e explorar quem faz artesanato de verdade.

E isso não acontece só no Pinterest. No Instagram é mais comum ainda. Mas eu considero que no Pinterest é mais grave, porque a plataforma nasceu com a proposta de ser um espaço de inspiração real, de projetos possíveis, de ideias que você pode tentar fazer.

Peças de crochê confeccionadas por artesãs

As duas primeiras imagens são de bonecas feitas pela artista Oliga Arkhipova, que faz trabalhos incríveis tendo o crochê e o bordado como base. As outras imagens são de peças produzidas por mim, Andrea Catão

Não é estética

É importante dizer: isso não é apenas uma questão estética. É uma questão política, ética e material.

O artesanato é feito por mãos. Quem borda, quem crocheta, quem faz amigurumi sabe que cada peça carrega tempo, corpo, tentativa, erro e paciência. O fazer manual é uma prática profundamente humana, atravessada por repetição, pelo domínio da técnica e pela memória.

Quando plataformas passam a empurrar imagens geradas por IA como se fossem inspiração, algo se perde. Não é só o realismo que desaparece. É o sentido do fazer.

Apagamento

O apagamento do trabalho manual é político. Quando uma imagem de IA ocupa o lugar de uma peça real, ela apaga a cultura transmitida pelas mãos.

E esse apagamento não é neutro. O artesanato sempre foi um espaço de trabalho feminino, comunitário, ancestral. Substituir esse trabalho por imagens perfeitas e impossíveis é uma forma de desvalorização que ecoa velhas estruturas de poder.

Teimosia

Eu quero ver o que é real. Quero ver o ponto torto, o fio que escapa, a textura que só existe porque alguém passou horas ali. Quero ver o gesto humano, não a simulação dele.

Artesanato é teimosia. Em um mundo que tenta transformar tudo em imagem rápida, perfeita e descartável, continuar fazendo com as mãos é um ato de rebeldia.

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