
Nesta etapa do Manifesto Bordado, sigo avançando na produção do banner do Agulhas da Resistência, incorporando novos elementos visuais ao risco e utilizando três pontos fundamentais do bordado à mão: ponto atrás, ponto pirulito e ponto cheio. Esses pontos estruturam figuras como flores e folhas, estrela, arco e flecha, entre outras formas, dando vida e acrescentando mais cores ao bordado. É a resistência a cada ponto.
Este projeto faz parte de uma série de textos que acompanha todo o processo do manifesto bordado, desde sua concepção até sua finalização. Nos textos anteriores, explorei a criação do projeto, a escolha dos materiais e os primeiros pontos bordados. Se você quiser acompanhar todas as etapas, clique aqui para acessar os primeiros artigos da série. Você também pode baixar gratuitamente o risco para bordar comigo ou adaptar o desenho ao seu próprio estilo.

Força visual e simbólica dos elementos
Cada elemento presente neste bordado foi escolhido por sua força visual e simbólica. Flores e folhas aparecem constantemente na tradição do bordado, geralmente associadas ao feminino, mas também carregam significados de luta e resistência. Além disso, é o que mais se vê bordado. No meu trabalho e no meu canal o que mais tenho feito é bordar arranjos florais.
A rosa vermelha, por exemplo, que tem duas versões neste risco, ocupa um lugar importante no meu trabalho. Ela está também na identidade visual da minha marca, Rosália Rosarinha, e na história das mulheres da minha família. A rosa vermelha também aparece como símbolo de algumas correntes políticas de esquerda.
E eu, particularmente, associo a imagem da rosa à trajetória de Rosa Luxemburgo, revolucionária e teórica marxista nascida na Polônia em 1871 e assassinada na Alemanha em 1919 por sua atuação política. Sua contribuição na construção e tradução dos ideais comunistas é referência para muitos movimentos. Sua crítica contra o autoritarismo também é referência para a luta feminista.
Outro ícone fundamental neste bordado é o arco e a flecha, um elemento que remete ao Brasil como terra indígena. Vejo como símbolo da luta dos povos originários por direitos e pela reparação frente ao genocídio indígena desde a invasão portuguesa, à qual deram o nome de “descobrimento”.
O arco e a flecha também fazem referência a Oxóssi, o orixá caçador das religiões de matriz africana, reforçando a interseção entre identidade, espiritualidade e resistência cultural.
Os pontos que estruturam o bordado
Para construir esses símbolos dentro do manifesto bordado, utilizo três pontos básicos, que podem ser aplicados isoladamente ou combinados, dependendo do elemento bordado:
✔ Ponto atrás, base essencial do bordado à mão, usado para contornos e definição de formas
✔ Ponto pirulito, uma variação do ponto atrás, criando textura uniforme em linhas e cobrindo espaços entre os pontos
✔ Ponto cheio, amplamente utilizado para preenchimento sólido de formas
Os nomes dos pontos podem variar conforme a fonte de aprendizado, da região, entre outras questões. Mas em geral pontos básicos são descritos da mesma forma, inclusive em diferentes línguas.
O ponto atrás, por exemplo, pode ser chamado de ponto reto ou ponto corrido aqui no Brasil, mas é mais conhecido como ponto atrás mesmo. Tanto que tem nome igual em inglês e em espanhol – back stitch e punto atrás, respectivamente. O ponto corrente segue a mesma lógica: chain stitch em inglês e punto cadena ou punto cadeneta em espanhol. Já as técnicas de bordado, aplicações e variações do mesmo ponto podem ter denominações bem distintas dependendo da tradição regional.
No manifesto bordado, priorizo pontos básicos porque são versáteis e acessíveis para qualquer pessoa que queira aprender a bordar. É importante destacar que muitos projetos que parecem avançados são, na verdade, combinações ou variações de pontos simples. Essa base permite criar peças expressivas sem a necessidade de usar técnicas complexas.
Caso queira aprender mais sobre bordado livre, no meu canal no YouTube, o Rosália Rosarinha Bordado, explico o passo a passo de cada ponto utilizado nesta fase do manifesto bordado. No final deste texto, vou deixar o vídeo tutorial de uma rosa amarela bordada usando estes três pontos.
Vale lembrar que, além do canal no Youtube, ao longo deste processo, estou gravando vídeos curtos mostrando como cada etapa evolui no tecido.
Materiais utilizados nesta etapa
✔ Linha meada Mouliné Anchor, 100% algodão mercerizado nas cores vermelho (047), verde (186, 188, 256, 269), preto (403), amarelo (289, 290), azul (410, 1090), laranja (330), marrom (359) e cinza (235)
OBS: A linha meada tem seis fios, mas neste bordado eu usei entre 2 fios e 3 fios. Para preenchimento em ponto cheio usei sempre 3 fios e em contornos, 2 fios.
✔ Agulha de costura número 10, bem fininha, e agulha número 9 (para uso de 3 fios da meada)
✔ Bastidor de plástico com tarraxa com 20 cm de diâmetro, um tamanho confortável para bordar trechos menores do risco
Agora sigo com a produção do manifesto bordado, explorando texturas e aprofundando as referências que dão sentido a essa peça, que será um dos símbolos visuais do Agulhas da Resistência – subvertendo linhas e pontos.
Jornalista, bordadeira, artesã e criadora de Rosália Rosarinha Bordado e Agulhas da Resistência.