
Digo sempre que qualquer pessoa pode aprender a bordar. E isso é a mais pura verdade. Claro que algumas pessoas têm mais facilidade, mas o que quero enaltecer é que não é uma questão de “jeito”, “vocação” ou “nascer artista”. Bordar é treino, estudo, aprendizado. E nesse ponto, qualquer pessoa pode dominar a técnica.
No entanto, o bordado é muito mais do que o domínio da técnica. E é justamente aí que entra a escolha pessoal, que é o que você faz com o domínio desta técnica. A direção que sua arte vai seguir é uma escolha sua. Seu bordado pode falar de igualdade ou desigualdade, de preconceito ou aceitação, de ódio ou de amor. Ele é uma forma de expressar o que você acredita, sente e quer transmitir a quem o vê, usa ou expõe.
E nada disso precisa ser estático. Com certeza você já ouviu falar nas fases de um artista. Mudamos com o tempo, com o que nos inspira ou nos traumatiza. Somos resultado das variações do clima, da economia, da política, da literatura, da família, da crença. Ou seja, recebemos influências – para o bem ou para o mal – de várias fontes o tempo todo.
Por isso, a arte é uma forma de expressão. E no meu caso, neste momento, quero que meu bordado fale de resistência, da construção social do que é ser mulher (*), da luta de classes, da necessidade de mantermos sempre atualizada a luta contra o patriarcado.
Do caos criativo ao bordado como manifesto
Essa necessidade de expressão me levou a criar um bordado-manifesto, inspirado na colagem visual que fiz para traduzir em imagens o que é o Agulhas da Resistência – a imagem que está em destaque logo acima e que uso como destaque na página Sobre do meu site e no primeiro texto do blog Linhas e pontos como forma de expressão.
Nesta colagem estão símbolos do feminismo, do comunismo, de lutas sociais e de resistência, além de elementos do crochê e do bordado. Essa mistura de referências é o que define imageticamente o Agulhas da Resistência – um espaço onde linhas e pontos se tornam formas de expressão.
A partir dessa colagem, criei um risco para bordar, simplificando alguns dos elementos, mas mantendo a essência do que quero transmitir. Esse bordado será, de certa forma, um banner, um símbolo visual do que pretendo construir neste espaço e, quem sabe, inspirar você que está visitando este site.
Baixe o risco gratuitamente e borde comigo!
Você também pode bordar esse mesmo risco que criei para este momento. Se quiser bordar esse desenho, o risco está disponível gratuitamente! Você pode baixá-lo, imprimir e bordar como quiser – seja seguindo o meu processo ou adaptando para o seu estilo.
Além disso, ao longo do tempo, vou compartilhar fotos e vídeos curtos mostrando o processo deste bordado. Vou falar sobre as cores de linha escolhidas, os pontos usados e como cada detalhe vai tomando forma.
Bordado como forma de expressão
O bordado livre nos permite romper com o convencional, experimentar e criar algo único. E, mais do que isso, ele nos dá a chance de expressar o que acreditamos. Cada peça bordada carrega um pouco da nossa história, das nossas lutas e das nossas escolhas.
Este bordado é um reflexo do que eu acredito – é também um convite para que você explore sua própria forma de expressão através do bordado ou de qualquer outra arte manual.
Aproveito para perguntar: o que você quer expressar com o seu bordado, com a sua arte, enquanto me acompanha neste processo de produção?
(*) Nota sobre a construção social da mulher
A frase “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, é de Simone de Beauvoir em seu livro O Segundo Sexo. Trata-se de uma crítica à ideia de que a mulher é definida exclusivamente por características biológicas. Beauvoir analisa história, cultura e psicologia para mostrar como a identidade feminina é moldada socialmente.
Ela refuta a ideia de que as mulheres são essencialmente passivas, submissas ou inferiores, e defende que essa condição é resultado de um sistema social que as limita e marginaliza. Sua obra é um dos pilares do pensamento feminista e continua sendo fundamental para a discussão sobre igualdade de gênero.
Jornalista, bordadeira, artesã e criadora de Rosália Rosarinha Bordado e Agulhas da Resistência.